Dança das águas

outubro 23, 2012  |   Contos   |     |   0 Comment

Vanessa Becker Bender

Não se vê ninguém à beira. O único som vem do balanço do mar e do grasnar das gaivotas brancas, que movimentam o silêncio do inverno. Nublado, chove uma fraca garoa. Em cena o mar cinza reflete o espelho do céu. Maomé pesca perto das pedras grandes, quando se depara com uma moça, que dança em frente às ondas. Ela faz movimentos com o corpo, parecendo conversar com o mar.

Jovem, pele bronzeada, cabelos lisos e castanhos, roupas leves em tons claros se movimentam ao toque do vento. De olhos fechados gira de um lado para o outro no ritmo das ondas. Há tatuagens em seu corpo. Uma delas, localizada nas costas diz: Livrai-nos de todo mal, Amém. O pescador fica intrigado com a situação. Não entende bem o que ela está fazendo. Parece em outra dimensão, como se ninguém pudesse vê-la. Seus braços entram em sintonia com o corpo, e os pés de calços na areia gelada parecem flutuar.

É uma dança movida pelos pensamentos. E o que pensa? Maomé questiona-se perplexo, sem respostas. Seus olhos seguem os gestos suaves e delicados da jovem, que leva as mãos à cabeça, abaixando-se, descendo até quase sentar a areia e subindo novamente. Alisa o corpo como se acarinhasse a própria alma. Se estivesse no palco seria uma bela apresentação, mas o teatro é na beira da praia, e a plateia deve estar dentro de si, pois fora não há ninguém. Alias somente Maomé, que tem certeza de que a dança não é para ele, pois ela nem mesmo parece realmente ali estar.

De olhos fechados a moça adentra o mar, sorrindo. Vai indo, e indo. Até que ele a perde de vista. Corre para perto de onde estava e vê o alaranjado da blusa, aparecer embaixo das ondas. Está se afogando? Será proposital? Não sabe, e sem conseguir quase pensar, o pescador joga-se em meio à maré, na busca de livrá-la de um mal maior. As ondas vêm contra o corpo e a correnteza não o deixa chegar. Mas, ele não desiste e continua a nadar em direção a ela. Seus braços aparecem e somem em meio às ondas. Tudo em questão de segundos, quando a alcança. Quase sem folego, devido à idade avançada, Maomé a segura firme em um dos braços. Percebe que ela está inconsciente.

Leva-a até a beira. Estende seu corpo na areia, olha para os lados da praia. Ninguém, apenas um cachorrinho vira-lata passa rapidamente pela neblina que se forma. Maomé estica o pescoço da moça para que o ar possa passar. Coloca uma mão em sua nuca, levanta o pescoço, apoia sua outra mão na testa, e força a cabeça dela para trás. Abre sua boca, pressionando a língua para baixo. Ela não respira. Em seguida, Maomé, fecha suas narinas com os dedos da mão que estão sobre a testa. Inspira fundo, abre a boca e a coloca sobre a sua. Sopra o ar com força, até que ela vai voltando a respirar.

Maomé sente, seu coração volta a bater. Enquanto cospe água para o lado, ela coloca uma das mãos sobre a cabeça, deixando a vista outra de suas tatuagens em seu braço: O fim é apenas o princípio.

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